Dezembro / 2018
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Uma Perspectiva Crítica do Xiismo
Para a grande maioria dos muçulmanos do mundo a questão sunismo versus xiismo tornou-se algo próximo de um dilema insolúvel; uma incômoda realidade que apresenta diversos aspectos...

Por: Ahmed Ismail

Em nome de Allah o Clemente o Misericordioso

Para a grande maioria dos muçulmanos do mundo a questão sunismo versus xiismo tornou-se algo próximo de um dilema insolúvel; uma incômoda realidade que apresenta diversos aspectos até certo ponto embaraçosos para os que aprenderam a ver o Islam como uma “nação”, e que aceitam como um ideal inerente à religião o senso de fraternidade islâmica. O fato é que por razões profundamente enraizadas na história política e religiosa da Ummah, ergueu-se entre a maioria de muçulmanos denominada de sunitas e o xiismo, uma muralha intransponível de preconceito que não permite sequer estabelecer uma justa análise. Digo, uma muralha intransponível de preconceito porque na visão pronta e acabada que é apresentada, não há nenhuma possibilidade de um direto e imparcial conhecimento e julgamento sobre o xiismo e os muçulmanos aderentes dessa escola (fiqh). As razões históricas e políticas (que definiram as religiosas), as quais remontam aos primeiros séculos da Hijra, produziram essa “muralha” que foi cimentada com intolerância, desconfiança, rancores continuamente alimentados e principalmente “desinformação” ou mesmo “contra- informação”.

O que há de irônico e lamentável nesse modo de eleger o preconceito como regra é que esse Din se caracteriza sobretudo pelo diálogo e a análise científica. O conhecimento, segundo a perspectiva do Mensageiro (S.A.A.S.), era o método por excelência para a superação da ignorância. Na prática, esse método propõe que “não se negue ou se aceite nada por princípio e sem conhecimento devido”, sem uma prévia e cuidadosa análise. A política do período Omíada substituiu esse princípio orientador pela imposição de um ponto de vista e a rejeição de todos os demais, o que, com o passar do tempo prevaleceu como um perigoso conceito para definir todas as coisas. A adoção ou a rejeição de algo se tornou resultado não do conhecimento, mas da orientação dos grupos predominantes seja na política ou na religião. Assim, como minoria e em oposição aos governantes Omíadas (e depois pelos Abássidas que os sucederam) e sofrendo constante perseguição por isso, os xiitas foram isolados do restante da Ummah por essa muralha de preconceito e desinformação. A repressão violenta e sangrenta que sofreram nos primeiros séculos ajudou a estigmatizá-los perante a mentalidade popular.

Em tal contexto, uma compreensão correta e um julgamento abalizado sobre o xiismo, os xiitas e os fundamentos de sua ideologia, tornou-se muito difícil para a maioria não-xiita. O mesmo pode ser dito sobre um conhecimento adequado das seitas genericamente denominadas xiitas, surgidas posteriormente e da razão de suas inovações (dissidências e inovações também presentes no ambiente sunita), que capacitasse um discernimento correto entre o xiismo duodecimalista (que crê na wilayah dos doze Imames) original e contemporâneo do Profeta (S.A.A.S.), das distorções e dissidências responsáveis por grande parte das práticas que suscitam justas críticas pelos demais muçulmanos.

O exercício da razão e do discernimento a partir do conhecimento teve e tem como principal obstáculo nessa questão “a informação a serviço da confusão”. Tornou-se então prática comum atribuir a “todos os xiitas” a pecha de “inovadores” ou “desviados”. Assim, quando um muçulmano busca algum conhecimento sobre os xiitas depara-se com esse comentário superficial e claramente preconceituoso que “coloca todos os xiitas” como uma súcia de seguidores de inovações, na melhor das hipóteses. É comum também que depois disso ele seja “aconselhado” a dar-se por satisfeito e manter-se afastado dos xiitas o quanto possa. Algo semelhante ao preconceito que os muçulmanos e o Islam sofrem por parte de muitos cristãos.

Essa barreira não pode ser transposta senão pela pesquisa cuidadosa e imparcial dos fatos e das fontes históricas das “duas” posições divergentes e não apenas aceitar cegamente como verdade incontestável o ponto de vista sunita. Erro inclusive cometido por parte considerável dos orientalistas europeus ao estudarem a história do Islam.

É bem verdade que nem todos os sunitas compartilham desse preconceito. Encontramos nas fileiras sunitas desde os que clamam uma aberta inimizade, aderentes da idéia de que os xiitas sejam hereges e como tais devam ser eliminados, até os que se mostram abertos para o diálogo franco e respeitoso dentro dos princípios do verdadeiro Islam. Entretanto, por razões políticas e pela herança omíada, a prática comum nas universidades sunitas do mundo islâmico (financiadas por monarquias e governos laicos) tradicionalmente tem sido relegar o xiismo ao que pretendem que seja “uma seita tardia surgida entre os muçulmanos”. E este ponto, para aquele que pretenda empreender uma pesquisa cuidadosa e imparcial, fundamentada nos fatos e nas fontes existentes (sunitas e xiitas), será o primeiro a revelar-se discutível.

As abundantes provas históricas de que o Xiismo existia já nos dias do Profeta (S.A.A.S.) são inquestionáveis. Obras históricas e biográficas do Islam de ambas as tendências mencionam nominalmente cerca de 69 companheiros do profeta (S.A.A.S.) como partidários de Ali (A.S.) (xiitas). A própria discordância quanto ao direito do califado registrada nos Sahihs mais renomados dos sunitas (Bukhari e Muslim) é uma prova disso.

Nenhum dos quatro Mahzab (escolas de jurisprudência sunita) nega a existência de uma tendência sistematizada desenvolvida no seio da família do Profeta (A.S.), representada por uma definida tradição (sunna) comunicada por Imam Ali (A.S.) ao Imam Hassan (A.S.) a Imam Hussein (A.S.), a Imam Ali Ibn Husssein (A.S.), a Imam Báqir (A.S.) e deste a Imam Sádiq (A.S.) (os últimos dois contemporâneos dos Jurisprudentes que deram origem aos quatro mahzab sunnitas). Também não é negado por nenhum deles que Imam Sádiq (A.S.) pudesse ser considerado um mujtahid, detentor de grande conhecimento que o capacitasse para exercer o Ijtihad. Não obstante discordâncias existissem entre eles e Imam Sadiq (A.S.), é inegável que a sua condição de homem de conhecimento e virtuoso jamais foi posta em dúvida.

Com o passar dos séculos e pelas razões já abordadas, a maioria sunita adotou as opiniões e os pareceres desses quatro sábios elegendo-as como “verdades incontestáveis” quando é sabido que eles próprios afirmaram “que poderiam estar errados em tudo o que ensinavam”. Toda uma literatura e uma didática religiosa foi desenvolvida com base em seus pareceres, e ao mesmo tempo, o forte preconceito à escola xiita relegou o fiqh Jáfar a uma assim entendida “dissidência menor e insignificante”. De modo que, quando um xiita questiona algum ponto da jurisprudência prontamente suscita a desconfiança dos sunitas.

Todavia, se nos reportarmos ao momento histórico em que as escolas surgiram, perceberemos que o ambiente de debate e diálogo se fazia presente. Com exceção do Imam Sádiq (A.S.) que reivindicava a Wilayah (autoridade espiritual legada do Profeta (S.A.A.S.)) nenhum dos demais jurisprudentes se pretendia depositário de um conhecimento inquestionável. Muito ao contrário, as divergências sempre existiram entre as quatro escolas, quer seja quanto a autenticidade das fontes de ahadith ou quanto a correta aplicação dos preceitos e disposições da jurisprudência nas práticas. E é notável que as diferenças entre a escola xiita e as quatro escolas sunitas nesses assuntos não são maiores do que as diferenças que existem entre elas.

A própria razão nos aponta que, se pretendemos chegar a um discernimento real, não podemos partir de pressupostos superficiais que comumente “determinam” a literatura e as fontes sunitas como “confiáveis” e a literatura e as fontes xiitas como “duvidosas”. Em todos os períodos da história islâmica o xiismo contou com historiadores, filósofos, jurisprudentes, pesquisadores e destacados sábios em várias áreas do conhecimento no mesmo nível e idoneidade dos seus pares sunitas, o que significa que em última análise não há evidência aceitável no pressuposto mencionado acima. Também é verdade que tenham existido entre os sábios xiitas os que não foram confiáveis, porém, é certo que igualmente tenham existido entre os sábios sunitas. O lamentável fenômeno do surgimento de ahadith falsos, que se somaram a narrativas inconsistentes e imprecisas no decorrer do segundo e terceiro século da Hijra ainda que tenha se verificado em maior escala no âmbito sunita, também ocorreu entre os xiitas. Portanto, não é um requisito decisivo para a aceitação ou a rejeição de um hadith o fato dele encontrar-se numa coletânea de um ou de outro.

Objetivamente, o que estamos a afirmar com esses comentários é que os pressupostos adotados pelos críticos e opositores do xiismo não se apóiam em nenhuma autoridade (senão a que conferem a si mesmos) para definir o que é “certo e confiável” e o que não é.

Não podemos subestimar o ambiente de tirania e de desmando que havia se instalado nos períodos Omíada e Abássida que sem dúvida, limitou a ação dos historiadores idôneos e jurisprudentes dos primeiros séculos; e principalmente que essas dinastias contaram, com o aparato do Estado, com uma considerável influência sobre o clero por meio de privilégios e cargos distribuídos, possibilitando assim que a sua “própria versão da história e da ortodoxia” fosse produzida.

É curiosa a folclórica e abundante literatura desses períodos “exaltando os feitos e o caráter digno, impoluto e sábio dos califas omíadas e abássidas em contraponto a realidade histórica das revoltas populares, dos massacres, das perseguições políticas, torturas execuções e principalmente da condição miserável que a maioria dos muçulmanos vivia, assistindo o fausto e a pompa das cortes daqueles que se auto denominavam “dignos representantes do profeta”.

Ainda hoje vemos sábios sunitas nos púlpitos exaltando os “feitos e os méritos” de alguns desses califas e não temos dúvida quanto à qual literatura recorrem e julgam como “verídica”.

Esse ranço histórico e cultural é um sub-produto que tem as mesmas raízes dos desvarios e desmandos que se sucederam na história, até dar origem a atual condição de estagnação e fraqueza em que os muçulmanos e o mundo islâmico se encontram.

A mobilização dos governos laicos e das monarquias do mundo árabe cerrando fileiras em oposição à revolução islâmica iraniana denunciou a trama de interesses que faz com que a muralha de preconceito contra o Xiismo continue a ser reforçada seja por uma sutil rejeição, pela desinformação, ou pela intolerância aberta e franca.

A campanha relativamente vitoriosa do Hizbuallah no sul do Líbano em confronto direto com o poderoso exército de Israel provoca uma situação no mínimo irônica: “são justamente os chamados “desviados”, os “hereges” que ali estão dando suas vidas pelo Islam, que estão defendendo pessoas para as quais o rei da Arábia Saudita “o guardião das duas mesquitas sagradas” (como ele se denomina) não se digna a erguer um dedo em defesa, e muitos dos parentes dessas pessoas protegidas pelas armas do Hizbuallah são os mesmos que desprezam e ofendem os xiitas”. Se as razões políticas que justificam a rejeição sunita (de suas lideranças políticas e religiosas) ao xiismo nos parecem evidentes, o mesmo não podemos dizer das razões teológicas que como vimos, tornaram-se por demais complexas para serem tratadas em detalhes e minúcias num artigo como este. Porém, com o intuito de demonstrar uma opinião respeitável e esclarecedora sobre a questão, (uma opinião que não pode ser desconsiderada pelos irmãos sunitas) exponho a seguir o fatwa do reitor de Al Azhar, Shaikh Mahmud Shaltut, um sábio sunita que declara que os muçulmanos são uma única nação e que as diferenças entre as escolas são diferenças de Ijtihad. Ele diz em seu Fatwa:

“O Islam não impõe sobre ninguém agir de acordo com uma seita em particular (sunni ou xia”h). De fato, todo muçulmano tem o direito de se iniciar em qualquer das escolas que tenham sido corretamente estabelecidas e que seus ensinamentos tenham sido plenamente descritos em seus livros, e qualquer muçulmano que tenha seguido um determinado mahzab tem mesmo o direito de adotar um outro, sem incorrer em nada errôneo ou culpável com isso. O mahzab Já”fari conhecido como Xi’ah dos doze imames é uma escola pela qual a adoração é lícita e permissível como qualquer outra escola sunita. Todos os muçulmanos devem compreender isso e abster-se de injustificado fanatismo sectário. Nem a religião de Allah nem a Sharia’h jamais pertenceram ou foram confinadas a uma escola em particular. Mas todos os sectos são Mujtahid e aceitáveis para Allah (...).”

Este equilibrado parecer de um sábio sunita tem o mérito de se opor a intolerância e ao preconceito cego contra os xiitas e a escola xi’ah, o que nos parece uma posição perfeitamente coerente com o verdadeiro espírito do Islam que apela para o respeito, o diálogo e a pesquisa pela razão.

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“No Islam as pessoas são iguais, todos são de Adão e Eva, o árabe não é mais virtuoso do que o não árabe, e o não árabe não é mais virtuoso do que o árabe, somente pelo temor a Deus”. Profeta Mohammad (S.A.A.S.)


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