Dezembro / 2018
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A Visão Islâmica Sobre o Racismo e o Nacionalismo
A história da humanidade tem sido dramaticamente marcada por variadas idéias e crenças racistas que estão na base de muitos dos grandes problemas mundiais e de graves conflitos sociais e políticos.

Por: Ismail Ahmad

Em Nome de Deus o Clemente o Misericordioso

A história da humanidade tem sido dramaticamente marcada por variadas idéias e crenças racistas que estão na base de muitos dos grandes problemas mundiais e de graves conflitos sociais e políticos. Modalidades diversas de chauvinismo, fundamentadas em idéias racistas, deram origem a guerras, massacres e genocídios. O primeiro ponto relevante ao analisarmos tais crenças e idéias é a sua presença na sociedade humana desde os seus primórdios. Acompanham o homem desde antes do surgimento do sedentarismo e da formação do Estado. Assumiram em todas as épocas formas variadas, porém, sempre estiveram presentes nos grupos humanos. Correspondem a instintos primitivos do ser humano que, dependendo de circunstâncias históricas, sociais e econômicas adquirem uma expressão violenta e ativa ou simplesmente permanecem num estado latente e passivo.

A sociedade moderna nesse aspecto pouco se diferencia das sociedades primitivas. Muito ao contrário, toda sua formação foi fortemente influenciada por tais crenças e idéias. Sua política, economia, conformação social e cultural refletem essa herança nefasta. Entretanto, há nela um elemento que torna essa realidade mais complexa: os avanços sociais produzidos nos últimos séculos e o pensamento científico suscitaram no homem ocidental uma espécie de auto-engano, um sentimento de superação do passado que, perigosamente o leva a acreditar que vive uma época de “supremacia da civilização” apesar de que todos os fatos a sua volta demonstrem o contrário. Para grande parte dos cidadãos do chamado “mundo desenvolvido” o abismo entre o primeiro mundo e as nações pobres, entre as classes ricas e pobres de seu próprio país é uma mera questão econômica e política; e quanto aos conflitos raciais presentes em praticamente todas as nações tratam-se somente de problemas locais e temporários.

Nos países de regime democrático pretendeu-se a resolução do problema racial estabelecendo uma espécie de “igualdade formal” ou uma “uniformidade de direitos” em suas constituições. Inspirados no pensamento humanista que floresceu na Europa a partir do século XVII, nos ideais revolucionários da Inglaterra, França e Estados Unidos e em todos seus preconizadores, as nações democráticas trilharam o caminho que lhes pareceu mais fácil, sem que o problema jamais tenha sido resolvido. A intolerância e a discriminação racial, o chauvinismo e mesmo as ideologias extremistas do racismo se mantêm vivas e presentes em todas essas sociedades. Os estados ditos democráticos do primeiro mundo funcionam sobre a mesma lógica, sempre que isso é conveniente aos seus interesses econômicos. A recente aprovação de regras restritivas para a admissão de estrangeiros na União Européia é um exemplo típico disso.

A lógica que seguem em nada se diferencia do pensamento clássico dos filósofos europeus que inspiraram suas leis e constituições, estes também jamais acreditaram numa “absoluta igualdade de direitos entre os seres humanos”. Basta dizer que todos eles, de Kant a Hume, de Rousseau a Hegel, em momento algum de suas vidas se levantaram contra a escravidão dos africanos ou dos nativos dos outros continentes. O fervor revolucionário que inspirou o surgimento dos EUA, por exemplo, não foi capaz de produzir uma constituição que reconhecesse negros e índios como seres humanos (quanto mais cidadãos). A própria cristandade se dividiu em debates sobre “a natureza humana dos não-brancos” até o século XVIII.

Assim, o mundo moderno não superou o problema racial e as idéias e crenças racistas pela simples razão de que suas próprias bases foram assentadas nessas mesmas idéias e crenças. Não obstante tenha formado acerca de si mesmo uma outra crença: a de que superou o passado; e que por essa razão se dá o direito de julgar todas as demais culturas como “atrasadas”.

O Racismo - Um Sistema de Dominação

Não é possível entender a origem das referidas idéias e crenças racistas sem que entendamos o que verdadeiramente é o racismo. Muito antes de se revestir de um caráter ideológico ou de se travestir de pseudo-ciência, o racismo se desenvolveu no seio das sociedades antigas. Primordialmente, as idéias racistas justificavam certos sentimentos tribais que podemos definir como um etnocentrismo básico. Todas as culturas primitivas tendiam a uma visão de mundo exclusivista em que seu próprio clã e tribo era entendido como o centro, uma visão de mundo que excluía as outras etnias e tribos. As lutas territoriais se inseriam nesse contexto. Mesmo em tempos de paz ou quando se estabeleciam tratados de coexistência e um sistema de trocas ou comércio, permanecia este forte traço cultural de identidade etnocêntrica. O surgimento do estado deu origem ao que hoje entendemos como racismo. Dominar outros povos e expandir o domínio territorial criou a necessidade de aprofundar as diferenças e principalmente “negar” o direito a existência dos demais povos e tribos. Assim, o racismo é antes de tudo, um sistema de dominação; um conjunto de idéias e crenças que buscam justificar a dominação de outros povos. O forte caráter etnocêntrico e racista, a vocação para o domínio e o expansionismo eram os traços essenciais das primeiras cidades-estado. Porém, o que conhecemos como “nacionalismo” só veio a surgir muito mais tarde.

Uma conseqüência natural das crenças racistas que fundamentavam o expansionismo e o domínio foi a escravidão. As crenças básicas que determinaram a formação desse sistema de dominação foram e ainda são as que correspondem aos instintos básicos presentes no homem e em muitos animais. As principais são:

- O etnocentrismo;
- A crença numa superioridade natural;
- A crença no direito natural ao domínio e a expansão.

O racismo aprofundou todas essas tendências e com o tempo produziu conceitos para justificá-los plenamente, o que envolvia a negação de qualquer valor humano aos dominados. Este foi um importante componente na cristalização da crença racista: definir uma inferioridade natural aos povos dominados, negar a humanidade de seus indivíduos para justificar o emprego de sua força de trabalho sem qualquer contrapartida, o saque de suas terras e mesmo, sua eliminação física sempre que se fizesse necessário.

Uma outra forma de racismo que se produziu em algumas sociedades foi o racismo intimamente relacionado a um sistema de divisão social em classes. Este, não se destinava ao estrangeiro, mas a uma definida divisão da própria etnia em castas superiores e inferiores. Justificado por uma visão religiosa ou mitológica, estabelecia uma “ordem natural” de aptidões pela qual a sociedade deveria ser regida. Definia a existência de uma classe de governantes, uma classe de comerciantes, uma de guerreiros, uma de sacerdotes e uma outra de servos. Sua peculiaridade não estava na existência das classes citadas, mas na crença em um “desígnio divino” que dava a alguns o privilégio de dominar a outros e ser servido por eles.

Escravidão, Civilização e Barbárie

Etnocentrismo supunha uma superioridade a todos os demais. Por conseguinte o racismo e a escravidão no mundo antigo não se baseavam na cor da pele e nem se destinavam a uma etnia específica. O estrangeiro de modo genérico era o “inferior”; e o ponto de vista mais comum entre os povos era o “direito natural à escravização do estrangeiro”. Um produto dessa crença foi o próprio conceito de “civilização” e de “barbárie”. A idéia de “superioridade” não encontrava qualquer justificativa senão no sentimento de “auto-glorificação” de sua própria cultura, costumes, língua e história; e isto requeria ao mesmo tempo um forte preconceito e sentimento depreciativo em relação a cultura, costumes, língua e história dos demais povos. Assim, o “bárbaro” era o “outro”. Encontramos exemplos disso em todas as civilizações antigas; e naquelas que se desenvolveram como estados ou impérios todo o sistema de dominação foi edificado sobre a base desse binômio civilização-barbárie. Na Grécia antiga, Aristóteles o definia com uma afirmação bem simples: “O desejo da natureza é que os bárbaros (os não-gregos) sejam escravos dos gregos”.

O Império Romano não apenas definia todos os demais povos como bárbaros como também se empenhou em destruir todos os registros ou traços históricos dos povos que submetia ao seu poder ou dizimava (no caso dos celtas e dos dácios, por exemplo). Desse modo, seus historiadores tiveram total liberdade para “escrever” a saga civilizatória de Roma contrapondo sua “civilização” a toda “barbárie” que a cercava. Não nos surpreende que o império hegemônico de nossa época e seus aliados europeus recorram aos mesmos sofismas para justificar invasões e massacres de civis, ou para preconizar uma suposta “superioridade civilizatória” ou ainda legitimar seus propósitos políticos e econômicos sobre todo o resto do mundo. De fato, o critério de “civilização” ou “barbárie” não possui qualquer validade para um julgamento sério no campo da história, da sociologia ou da antropologia pela simples razão de que não possui qualquer base na realidade objetiva; mesmo o domínio de tecnologias ou o avanço material e científico não pode ser critério para a avaliação de uma civilização ou cultura. Todas as avaliações baseadas em critérios semelhantes partem de uma visão preconceituosa e de pressupostos determinados por uma história de dominadores e dominados.

O Advento do Islam e de Uma Nova Visão da Comunidade Humana

O quadro descrito acima era predominante em todo o mundo quando o Islam surgiu. Como Mensagem universal o Islam trazia uma nova concepção de comunidade humana. Na verdade, expunha de modo bastante claro e definitivo a mesma diretriz divina a ser adotada pelos seres humanos, que tinha sido predicada por todos os profetas e mensageiros. Portanto, negava todos os critérios humanos, baseados em suas próprias paixões e instintos, para estabelecer alguma pretensa superioridade de um povo sobre outro ou de um indivíduo sobre outro.

O fator determinante para o conceito de comunidade (povo) para o Islam não possui nenhuma relação com o laço sanguíneo ou com o território, fatores que concernem aos instintos, mas se relaciona a consciência e o intelecto humano. Assim, o Islam adota a crença como fator determinante para o conceito de comunidade. Da mesma maneira, o Islam rejeita uma unidade fundamentada na raça, na cor ou no idioma e desconhece qualquer privilégio ou superioridade pautadas em tais fatores. O Alcorão Sagrado afirma esta unidade dizendo: “Ó humanos, temei a vosso Senhor, que vos criou de um só ser, do qual criou a sua companheira, e de ambos, fez descender inumeráveis homens e mulheres...” (C.4 – V.1)

Esclarece a existência de diferentes povos e tribos dizendo: “Ó humanos, em verdade Nós vos criamos de macho e fêmea e vos dividimos em povos e tribos para reconhecerdes uns aos outros. Sabei que o mais honrado de vós, ante Deus, é o mais temente...”(C.49 – V.13)

Com estes, e outros textos estipulantes da Sunnah do Profeta (saas) o Islam nega qualquer fundamento às crenças racistas ou a qualquer idéia de etnocentrismo ou superioridade. O ponto de vista islâmico é de que toda forma de racismo ou de orgulho tribal ou nacional é uma modalidade de ignorância e paganismo.

A conseqüência histórica dessa nova concepção de comunidade humana foi surpreendente. O chamado islâmico produziu num breve espaço de tempo uma civilização que congregava diversos povos e raças irmanados pela fé. Diferenças culturais e linguísticas foram superadas em nome de um elemento agregador de maneira até então inédita. A despeito das crises políticas e dissensões internas no decorrer de sua história, o Islam manteve seu ímpeto inicial promovendo uma revolução na consciência dos povos. Seus inimigos (internos e externos) há séculos têm se empenhado em minar seu caráter de unidade de diversas maneiras, ora insuflando na comunidade islâmica ideologias fabricadas ora buscando reavivar antigos sentimentos tribais e raciais, como veremos em breve.

O Novo Império Ocidental

Três séculos antes do surgimento do Islam, um evento histórico de grande significado ocorria: a aliança do Império Romano com a então nascente Igreja Paulina. Esta aliança, melhor dizendo, foi a acomodação do grande poder mundano da época a um elemento que, segundo a visão política de Roma, seria de grande importância para trazer algum senso de unidade aos povos conquistados e assim, criar estabilidade num mundo conturbado. Esta composição naturalmente exigiu concessões de ambos os lados e, o tempo mostraria que os cristãos teriam muito mais a ganhar com ela do que o Império Romano.

Os concílios do século IV d.c. operaram o encontro e a mescla de duas heranças culturais diversas: a greco-romana e a judaico-cristã, produzindo uma visão de mundo adequada para um novo tipo de império, o qual amparado pelo poder mundano promoveria a perspectiva da “salvação dos povos” pela mensagem redentora do Cristo. Entretanto, essa “universalidade” não se fundamentava senão no poder papal e nos interesses do clero dirigente. A Igreja paulina, uma das muitas correntes em que o cristianismo tinha se dividido nos primeiros três séculos, e que se tornaria a “Igreja de Roma” tinha por principal objetivo utilizar o poder mundano do Império para impor sua visão religiosa sobre todas as demais. Para isso, se conformou a esse poder e com a histórica conversão do Imperador Constantino viu o caminho aberto para suas pretensões. Ao tornar-se a Igreja Romana, esse poder religioso que se denominava detentor da herança espiritual do Cristo moveu-se, não só geograficamente de Jerusalém para Roma, mas também latinizou-se em sua essência. Assim, surgia o novo poder do Ocidente que nos séculos seguintes se expandiria primeiro até os limites do Império Romano, depois para toda a Europa.

Num processo de dez séculos o Poder espiritual e mundano da Igreja forjou o espírito das monarquias surgidas com o esfacelamento do Império Romano. O poder dos reis nada mais era do que o poder concedido pelas armas à serviço da “cristandade” e com isso, a visão de “universalidade” se limitava a “expansão da fé cristã”. E esta, por sua vez, legitimava o domínio dos povos, o saque de suas riquezas e naturalmente, o enriquecimento dos monarcas, da Igreja e de seus servidores. Então, ao fim da Idade Média, quando a balança dos poderes mundano e espiritual pendeu para o primeiro, com a ascensão das burguesias e o cisma protestante; o totem civilizatório da “universalidade da fé cristã” capitaneou o avanço europeu sobre os demais continentes e povos.

O Nascimento do Eurocentrismo

A chegada dos conquistadores europeus as Américas e o início de todo processo colonizador na África, Ásia e Oceania não significou apenas a ampliação do poder, mas também a ampliação da idéia cristã de “universalidade”. Os povos europeus, convencidos de que cumpriam a “vontade de Deus” abraçavam a missão evangelizadora e civilizatória como um encargo divino. O sentido lato desta “missão” produziria nos três séculos seguintes o genocídio em escala jamais vista de centenas de povos e culturas em todos os continentes.

A crueldade sem limites dos conquistadores espanhóis na América provocou os primeiros embates ideológicos entre alguns teólogos, que defendiam a conversão dos nativos e os que punham em dúvida a natureza humana daqueles povos e portanto, tendiam a apoiar a escravidão ou a simples eliminação dos mesmos. Em pouco tempo, os que investiam na conquista dos territórios e no saque das riquezas passaram a ver as pretensões evangelizadoras dos jesuítas como um estorvo.

Com a incorporação da mão de obra escrava trazida do continente africano, o sistema escravista se tornou a artéria principal da produção e circulação de imensas riquezas. Através do trabalho escravo as nações conquistadoras multiplicavam seus lucros, edificavam seus impérios sobre a carne e os ossos dos povos conquistados. O argumento dos lucros, de cuja parte considerável a Igreja usufruía, não só venceu os pudores de Roma como também produziu a necessidade de uma fundamentação moral e filosófica que o justificasse. Ora, se a expansão da cristandade não era suficiente para justificar a conquista e a escravização, já que havia dúvidas sobre a condição humana tanto dos nativos da América como dos africanos, então o que poderia servir como justificativa?

O eurocentrismo surgia como uma justificativa perfeita, tanto para os que assumiam a missão evangelizadora como para os que simplesmente acreditavam num direito natural do homem branco de dominar a tudo e expandir seu domínio por todas as regiões da terra. Alguns teólogos, católicos e protestantes, defendiam que a escravidão do homem negro seria um tipo de expiação temporal e terrena e que a submissão ao senhor branco neste mundo era para o negro a certeza da salvação eterna.

O sistema escravista europeu se diferenciava do escravismo do mundo antigo e do escravismo tribal exercido no continente africano e asiático no mesmo período; pela primeira vez um sistema de escravidão se baseava na cor da pele e se justificava não apenas no direito de quem subjuga sobre quem é subjugado, mas também num direito auto-conferido por uma suposta superioridade (humanidade) já que os escravos negros e indígenas não seriam seres humanos. Ou como alguns afirmavam “não seriam totalmente humanos”. Neste ponto, se diferenciavam também do raciocínio romano para a escravidão; que a baseava no direito do civilizado (cidadão romano) de escravizar os bárbaros (não-romanos).

O surgimento das idéias iluministas se deu num contexto em que o direito do europeu à colonização e à escravização não era questionável, e que qualquer hipótese de direito ou natureza humana dos povos subjugados não merecia qualquer consideração. Na verdade, o iluminismo, ao formular a história como um desenvolvimento linear e ininterrupto da razão, e por conseguinte a inevitabilidade de um domínio progressivo da natureza, enquanto retomava a cultura clássica greco-romana como herança histórica européia, fortaleceu as bases de um pensamento eurocêntrico.

A onda crescente do pensamento racionalista em todas suas tendências, sobretudo na França e na Alemanha; não só fundamentou o direito expansionista em bases puramente pragmáticas, como também acendeu o fogo do descrédito ao projeto evangelizador. De certa forma, se prenunciava a dissociação do poder econômico e político de um poder religioso. Se havia um direito natural e uma “superioridade” natural do homem branco sobre tudo e todos, sua dominação era inevitável e independia de qualquer “mensagem evangelizadora universal”. Era evidente que o papel da fé cristã tornara-se apenas o de uma ferramenta de facilitação do sistema de dominação.

A Ideologia do Nacionalismo entra em Cena

Um outro elemento definiria novas bases filosóficas para um direito expansionista e escravista. O nacionalismo, como escola de pensamento social e político, um produto do Iluminismo, estabelecia uma nova escala de valores na qual os interesses patrióticos não estavam sujeitos as possíveis limitações morais da crença religiosa. Portanto, a mercantilização de mão de obra escrava seria uma questão de estado não submetida a discussões quanto a natureza humana ou animal dos povos escravizados. Aqui é preciso abrir um parênteses para tratarmos mais detalhadamente do que se trata o nacionalismo e de que maneira transformou a mentalidade política do século XVIII.

O nacionalismo, sobretudo após a Revolução Francesa, assumiu um caráter místico tomando para si uma simbologia “sagrada”. A lealdade, antes devida a Igreja e aos monarcas a partir de então se dirigiria a “Nação”. Os sentimentos patrióticos e a crença numa superioridade natural assumiriam um lugar de destaque na mente e nos corações das massas. Os símbolos pátrios, a bandeira, o hino nacional e os brasões adquiririam um caráter de santidade e, por conseguinte, os interesses nacionais, não importando quais fossem esses interesses, estariam sempre acima de qualquer outra consideração.

Esta ideologia cumpriu um importante papel na unificação dos estados nacionais que nas últimas décadas do século XIX disputariam os continentes em seu programa imperialista.

É curioso verificarmos que as definições possíveis de nacionalismo, encontradas em tantos livros de teóricos e filósofos da política, são tão variadas e ambígüas. De modo geral apresentam laços raciais, herança cultural, idioma comum e outras características como base para uma identidade nacional. Porém, todas as definições clássicas carecem de um único exemplo concreto em que não exista contradição ou que não apresente uma realidade que nega a validade do conceito dado ao nacionalismo. O fato é que as fronteiras geográficas resultam de fatores absolutamente estranhos a qualquer definição com base em “laços comuns”. Não raro populações de uma mesma origem étnica, de um mesmo idioma e cultura se vêem separadas por uma fronteira e pertencendo a dois ou mais estados distintos.

Há sem dúvida uma carência de fundamento para todo o conceito de nação, tal como defendem seus proponentes. Tendemos pois, a aceitar que a ideologia nacionalista nascida do pensamento republicano atendia a um projeto político das forças burguesas ascendentes no século XVIII; e atendia sobretudo o próprio processo do capitalismo que exigia novos mercados. Esse modelo nacionalista foi levado a outras partes do mundo como uma continuação do programa imperialista. Os males decorrentes dessa ideologia marcariam de modo traumático a história do século XIX e XX.

A Contribuição Científica ao Sistema de Dominação

Não demorou e os cientistas se juntaram aos filósofos na legitimação do direito a dominação e a escravidão. A princípio, tomavam como seu mais forte argumento para lançar o descrédito sobre o propósito da evangelização, o absoluto fracasso e ineficácia do trabalho pastoral para transformar os povos subjugados em “civilizados”. Ressaltavam a “incapacidade natural” dos povos nativos para integrar o modelo de desenvolvimento e produção. Este argumento ganhou maior força a partir da revolução industrial, quando alguns filósofos e eminentes teóricos da economia se debruçaram sobre como resolver o problema da adaptação da grande massa humana de camponeses nos países industrializados às exigências do capitalismo. Para eles estava bastante claro que se substituir a mão de obra escrava pela mão de obra operária já era uma tarefa difícil, integrar ao novo modelo econômico seres “indolentes e intelectualmente inferiores” era uma tarefa impossível.

O fim gradual do tráfico de escravos e do próprio sistema escravista no século XIX não alterou fundamentalmente o fortalecimento ideológico do racismo e do eurocentrismo. Na verdade, o escravismo tratava-se apenas de um ítem de um programa muito mais amplo de poder e dominação. No século XIX as potências européias se preparavam para um estágio mais avançado de imperialismo, possibilitado com a revolução industrial. O sistema escravista tornara-se uma ferramenta ultrapassada. Portanto, está claro que o sistema de dominação racista prescindia do escravismo e atendia a um programa de poder de maior abrangência.

No século XIX a conquista efetiva dos novos territórios e a exploração de todos os recursos naturais disponíveis nessas terras passava a encabeçar os itens do programa. Isso significava um plano sistemático de extermínio de povos onde quer que a aculturação pura e simples não fosse possível. O EUA, desde sua formação no final do séc. XVIII tinha iniciado um programa de extermínio em grande escala dos povos nativos do continente num grande avanço para oeste. As potências européias, em meados do século XIX se preparavam para um avanço imperialista sem precedentes em direção a África, Ásia e Oceania.

Novamente a ciência e a filosofia se ocuparam em embasar e justificar o sistema de dominação racial. Em 1859, Charles Darwin lançou a sua célebre obra, “A Origem das Espécies”, na qual formulava a existência de um sistema de seleção natural que determinava a sobrevivência dos seres vivos mais fortes e a eliminação dos mais fracos. As leis da biologia que Darwin aborda em sua obra seriam interpretadas grosseiramente e aplicadas no campo da sociologia e da antropologia. Homens como o sociólogo Herbert Spencer e o geógrafo alemão Friedrich Ratzel transformariam o darwinismo no que veio a ser conhecido como “o darwinismo social”. De acordo com a interpretação destes, somente as nações e povos fortes teriam o direito de viver e as nações e povos fracos estavam fadados à destruição e o desaparecimento. A sobrevivência dos mais fortes exigia a eliminação dos mais fracos. Por conseguinte, a eliminação dos povos inferiores e inaptos seria uma lei determinada pela natureza, uma lei irreversível. Os mais fortes, a seu turno, deveriam cumprir os desígnios da natureza e expandir seus domínios sobre toda a terra.

A semelhança existente entre a dinâmica da evolução das espécies, tal como exposta na obra de Darwin, e as relações humanas sob a égide do capitalismo foi explorada por esses ideólogos fornecendo a mais convincente e racional justificativa para o Imperialismo.

Outros cientistas da época se dedicaram a “provar”, por meio de estudos de anatomia e fisiologia, a superioridade intelectual da raça branca que para eles explicaria o seu triunfo material e a supremacia de sua cultura e civilização sobre as demais. Indo além disso, os eugenistas preconizavam a purificação do gênero humano através da identificação dos mais fortes e aptos para uma reprodução dirigida e a esterilização dos mais fracos e inaptos (os não-brancos). Todas essas distorções do pensamento científico resultaram em atrocidades patrocinadas pelos estados “civilizados”. Campos de concentração disfarçados de áreas de pesquisa científica surgiram na África, o mais conhecido deles o de Shark Island na Namíbia onde milhões de seres humanos foram eliminados em nome da ciência e da civilização; um prenúncio do que viria ocorrer nos campos nazistas quarenta anos depois.

Foi também com o aval da ciência da época e sob o pretexto de levar a civilização aos povos “selvagens” que aventureiros europeus como o belga Leopoldo II e o inglês Cecil Rhodes se apropriaram de gigantescas extensões de território no coração da África, escravizaram, torturaram, mutilaram e assassinaram milhões de homens, mulheres e crianças. Em virtude do caráter “científico”, “humanitário” e “cristão” daquilo que os colonizadores europeus chamavam de “fardo do homem branco” (ou seja, a missão emancipadora das raças de que foram encarregados) se tornaram mesmo comuns “zoológicos” em algumas capitais européias onde se exibia indivíduos negros.

Os propósitos imperialistas dos europeus no final do século XIX, com o amparo da pseudociência da superioridade racial, se realizaram a partir da Conferência de Berlim (1884/1885). Alemanha, França, Inglaterra, Bélgica, EUA e as demais potências da época estabeleceram suas “áreas de influência”, partilharam os territórios da África e se lançaram a espoliação mundial.

O Racismo no Mundo Ocidental no Século XX

Uma das razões da perenidade do racismo como sistema de dominação, é a sua capacidade de acomodação, adaptação ou mimetismo nas sociedades humanas. O século XX assistiu o surgimento de ideologias totalitárias de forte caráter racista, o estabelecimento de regimes políticos fundamentados na segregação racial como o sistema de apartheid da África do Sul e um regime similar nos estados do sul dos EUA; assistiu também a formação de sociedades moldadas dentro de uma herança escravista e colonialista (na América Latina) onde o racismo se tornara institucional.

O fracasso das ideologias totalitárias, o nazi-fascismo e o nacionalismo nipônico ao final da Segunda Guerra Mundial, a dissolução dos regimes racistas na África do Sul e nos estados sulistas dos EUA, embora tenham sido acontecimentos de grande relevância histórica não significaram em absoluto a derrocada da pseudo-ideologia racista. Ela se faz presente em praticamente todas as nações desenvolvidas e os conflitos raciais e étnicos desmentem o mito de uma civilização moderna pluralista e pós-racista.

A ordem econômica dominante no mundo reflete a perpetuação do sistema de dominação ao qual o racismo serve: os brancos do hemisfério norte permanecem no topo da pirâmide econômica e os não-brancos permanecem à margem da riqueza produzida no mundo. Conseqüentemente, os índices de perspectiva de vida e de exposição a doenças permanecem distantes entre eles mesmo dentro das sociedades mais ricas.

Em todos os países desenvolvidos se identificam sintomas de um acirramento da intolerância racial e étnica. Grupos, organizações e partidos abertamente racistas mantêm atividades e propaganda em todas as chamadas democracias do ocidente. A isto se acrescentou a forte onda de Islamofobia na Europa e nos EUA onde tornou-se absolutamente normal discriminar e marginalizar grupos étnicos e religiosos. Sob diversos pretextos, desde o problema estrutural da economia e a migração desordenada até o “terrorismo”, as nações ricas da Europa e da América do Norte adotam medidas declaradamente discriminatórias contra africanos, latino-americanos e asiáticos. Por um lado lideram um sistema econômico mundial que sufoca e explora as nações pobres e por outro se empenham em restringir fluxos migratórios.

A conferência mundial contra o racismo em Durban no ano de 2001 foi palco de uma demonstração muito clara do caráter racista que rege as ações políticas das nações ricas. Movimentos sociais e grupos anti-racistas do mundo inteiro apresentaram a reivindicação de uma reparação histórica e indenizatória aos descendentes dos povos escravizados e dizimados durante os séculos de colonização. Exigiam também o reconhecimento oficial, por parte das nações que exerceram a colonização e se favoreceram com o sistema escravista, do crime histórico cometido contra os demais povos. Uma outra reivindicação tratava da condenação do sionismo como uma ideologia racista.

Por dias as discussões se arrastaram sem que se chegasse a um acordo. A delegação norte-americana, que desde o início tinha deixado claro sua intenção de impedir qualquer medida que fosse contra os interesses de seu governo, se retirou. Teve o apoio de seus aliados históricos sionistas e dos australianos e britânicos. A estratégia era bem simples: os norte-americanos se recusavam a apoiar qualquer deliberação que condenasse a política racista de Israel contra os palestinos. De sua parte, a delegação israelense não apoiava nenhuma deliberação que incluísse possíveis reparações históricas a serem acatadas pelas potências européias e os EUA. O documento final apenas contém o reconhecimento formal de um “erro histórico” no processo de colonização. A Europa e os EUA se recusam a qualquer medida reparatória ou indenizatória aos descendentes dos povos que foram escravizados ou massacrados na África, nas Américas, na Ásia e na Oceania. Curiosamente estas mesmas nações não se furtaram a impor pesadas reparações à Alemanha em favor dos descendentes dos judeus mortos na Segunda Guerra, enquanto o genocídio do povo cigano que vivia na Europa nos mesmos campos de concentração permanece envolto num silêncio revoltante.

Há uma tendência de revisionismo histórico, da qual fazem parte nomes de destaque na intelectualidade ocidental, que busca justificar o processo de colonização e tudo o que ele produziu com o argumento de uma contextualização dos fatos numa mera circunstância histórica e cultural que, segundo eles, invalida uma análise puramente “maniqueísta”. Cabe observar, que estes mesmos senhores não teriam coragem de incluir o que chamam de genocídio judeu nessa estranha explicação. Há também os que julgam todo o processo da colonização e a imensa catástrofe que ele significou para os povos não-europeus como um processo histórico inevitável e necessário para o progresso da civilização humana. Cito tais análises para demonstrar o grau de comprometimento da cultura e da ciência ocidental com o sistema de dominação imposto pelo capitalismo em seu desenvolvimento.

O Racismo como Herança Colonial

Ao falarmos de sociedades onde o racismo se tornou institucionalizado, como no Brasil e em outros países da América Latina, falamos de sociedades em que as crenças racistas e suas variadas manifestações (preconceito racial, discriminação racial e segregação) se introduziram profundamente no tecido social e permanecem presentes em todos os setores da vida dessas sociedades. O racismo, neste caso, cumpre um papel de sustentação de antigas estruturas de poder econômico e político. Por toda América Latina os indígenas e os afro-descendentes ocupam uma posição marginalizada na sociedade, sendo vítimas de um sistema excludente e discriminador. Entretanto, são identificáveis pelo menos dois padrões distintos para essa estrutura de dominação. O primeiro é o padrão típico das nações de colonização espanhola onde o ponto fundamental dessa estrutura foi (e continua sendo) uma concepção de sociedade onde o indígena está à margem. O que significa dizer que as elites brancas e mestiças aceitam o fato da exclusão dos indígenas como um fato absolutamente normal, pois no âmago da mentalidade social permanecem intactas as mesmas estruturas coloniais.

O estabelecimento de governos democráticos, de perfil liberal ou mesmo de centro-esquerda, em países como o México, Peru, Bolívia, Equador e Colômbia jamais tocaram nestas estruturas. Foram as próprias populações indígenas que, conscientes de sua situação, deram início a um movimento de emancipação e cidadania tal como vemos agora em curso na Bolívia, no Equador e em outros países da América latina; movimento que assusta as elites brancas e mestiças que pela primeira vez vêem seus privilégios e a própria estrutura do sistema de dominação em risco.

Um segundo padrão é característico do Brasil. Sua história possui peculiaridades que permitiram o desenvolvimento de relações sociais de poder e dominação um tanto distintas. Tal é a complexidade dos mecanismos de segregação, preconceito e discriminação que se desenvolveram aqui que se torna possível “negar a existência do racismo” e com isso perpetuá-lo, pois não se pode combater algo que o discurso cultural corrente declara como “extinto”. Na prática, “a negação do racismo” na sociedade brasileira tem se demonstrado a melhor estratégia para protegê-lo.

A Ciência Moderna e o Racismo

As pesquisas com o genoma humano dos últimos anos tem posto por terra os fundamentos do racismo; têm demonstrado que o próprio conceito de raça não encontra base na realidade e que as diferenças entre os biotipos humanos não podem ser definidas como “diferenças raciais”. Não apenas os genomas dos diversos grupos étnicos existentes são virtualmente idênticos, mas também as diferenças se fazem presentes no interior de todos os grupos humanos. Importantes pesquisas apontam para a evidência de que todos os grupos humanos descendem de um ancestral único, o que derruba todos os argumentos de “raça pura” ou “raça superior”. A despeito disso, um outro grupo de cientistas interessados em sustentar o pensamento racista, como James Watson, polemizam insistindo em uma “inteligência superior” do homem branco. É preciso porém, relativizar a afirmação de inexistência de raças distintas pois o conceito “raça” freqüentemente é confundido com “identidade cultural”. A inexistência de raças distintas não deve servir para a negação de identidades culturais distintas. Esta noção tem sido utilizada pelos proponentes de uma “nova ordem mundial” para desacreditar o valor das identidades locais, culturais e religiosas com a intenção clara de impor uma cultura global alinhada com o sistema de dominação econômica, política, cultural e ideológica do ocidente.

Crenças Raciais e Nacionalismo

A estreita relação entre crenças raciais e nacionalismo são bastante evidentes. Embora possam servir a objetivos diversos, ambos partem do mesmo pressuposto: uma possível distinção qualitativa entre os grupos humanos que assegure algum tipo de superioridade ou preferência. Ainda que o nacionalismo, no sentido em que foi concebido pelo pensamento europeu, não baseie sua reivindicação necessariamente na diferença de cor, recorre às mesmas tendências instintivas de grupo, laços sanguíneos ou ancestrais para estabelecer suas posições. O Islam não condena os laços que unem os indivíduos, os laços sanguíneos, a identidade cultural e o sentimento de grupo, apenas não baseia o conceito de povo ou nação nessas peculiaridades. Sua principal objeção à ideologia nacionalista reside na manipulação de tais sentimentos que seus proponentes fazem com objetivos políticos. O Islam denomina esta forma grosseira de estabelecer o conceito de comunidade humana de “fanatismo”. O Profeta a definiu dizendo: “A relação ou união normal à tribo não é fanatismo. Fanatismo é apoiar os parentes ou compatriotas em todos os casos, quer sejam justos ou injustos, ruins ou virtuosos. As pessoas que assim procedem incorrem na cólera de Deus”.

A idéia de nacionalismo produzida na Europa a partir do século XVII corresponde a esta mentalidade que reduz a questão ao “interesse da nação” o qual deve estar acima de qualquer outra consideração.

Racismo e Nacionalismo no Mundo Islâmico

O advento do Islam com seu chamado a unidade em torno do ideal comum da fé, produziu como vimos uma nova concepção de comunidade humana. A este chamado responderam primeiro tribos historicamente rivais e em seguida, povos variados. Em poucas décadas essa onda transformadora estendeu-se como uma nova civilização. Contava com um elemento unificador que se provava muito mais eficiente do que todos os fatores que outras civilizações e impérios tinham contado para estender seu domínio. Contudo, o sentido de unidade ao qual Deus e seu Profeta exortaram os muçulmanos, possuindo um caráter espiritual e elevado, exigiria deles muito mais do que uma mera organização social e política, não significava uma mera disposição dogmática estabelecida e determinada. Ao contrário, exigiria um comprometimento pessoal e coletivo de cada nova geração e, sobretudo, a orientação divina assegurada pela figura de um Imam infalível tal como o Profeta tinha determinado antes de sua partida. Em outras palavras, a unidade islâmica em torno da fé continha em si o desafio, para cada nova geração, de rejeitar todas as idéias ou crenças racistas e dissensões que pudessem minar essa unidade.

De fato, o senso de unidade começou a ser ameaçado no período omíada. Tomando o poder, o clã omíada não só transformou a ordem política numa máquina para seu próprio proveito como alimentou idéias de orgulho racial, propagou as dissensões e fez renascer os interesses tribais e pessoais, o que foi um fator determinante para sua própria destruição. Porém, o poder monárquico que inauguraram entre os muçulmanos continuou sendo uma fórmula de corrupção e ruína na história da civilização islâmica século após século. Os abássidas que os substituíram, repetiram o mesmo erro instigando povos antes irmãos ao ódio racial. Logo, preconceitos e lealdades tribais que tinham sido abolidas com o Islam, voltaram a se manifestar dividindo e enfraquecendo a comunidade muçulmana por toda parte.

Uma outra conseqüência desastrosa desse retrocesso foi verificada com a expansão do império islâmico. A centralização do poder político nas mãos de déspotas produziu, entre tantos males, uma distorção do costume do cativeiro dos prisioneiros de guerra, costume antiqüíssimo entre os povos semitas e as tribos da península. A prática em si, não envolvia qualquer apelo racial ou de cor, tratava-se originalmente de um código de guerra que o Islam manteve sob certas condições, dentre as quais, o tratamento humano dos cativos. A expansão do império islâmico e o acúmulo de riquezas numa dimensão inédita nas mãos dos califas e governadores gerou um gigantesco comércio de escravos provenientes principalmente do continente africano. Sob o pretexto de uma suposta legalidade segundo a jurisprudência, vergonhosos abusos contra a dignidade e a vida dos cativos se tornaram comuns. Para satisfazer os caprichos e a lascívia dos poderosos, em várias partes do mundo islâmico formaram-se haréns e consequentemente, a castração de cativos e outras atrocidades foram largamente praticadas. Esse fato histórico não deve ser entendido de forma separada dos outros que levaram a derrocada do império islâmico. Esse processo no decorrer dos séculos, somado a outros fatores históricos e políticos, viria a arruinar todos os estados muçulmanos das Filipinas ao Marrocos abrindo caminho para a dominação ocidental.

Os colonizadores europeus empregaram em terras islâmicas os mesmos expedientes empregados em outros territórios da África e da América para consolidar sua dominação. Naturalmente, exploraram ao máximo as divisões tribais e étnicas e as aprofundaram com o intuito de minar o espírito islâmico fortemente impregnado na cultura e sociedade. Corromperam lideranças tribais e governantes regionais manipulando a todos em troca de privilégios e poder. Despenderam esforços contínuos no sentido de destruir todos os valores islâmicos e para isso impuseram sistemas educacionais nos moldes ocidentais. Essa política de aculturação se fundamentava, sobretudo, numa visão de “superioridade da civilização ocidental”. Não bastava aos colonizadores tomarem dos povos dominados seu patrimônio material, sentiam a necessidade de corromper seus valores espirituais, morais e culturais, insuflar em seu íntimo um “sentimento de inferioridade”, destruir sua auto-estima para com isso perpetuar o sistema de dominação colonial.

O triunfo da dominação colonial neste aspecto foi relativo. Podemos dizer que essa política sistemática de aculturação causou muito mais males e prejuízos aos povos colonizados do que produziu frutos aos colonizadores. Suas conseqüências deletérias permaneceram como um legado maligno depois do fim do colonialismo europeu.

O processo de libertação do jugo do colonialismo no mundo islâmico iniciou-se no século XIX e atravessou todo o século XX. Via de regra, as elites regionais profundamente influenciadas pelas idéias ocidentais, que contavam com uma formação intelectual moldada dentro dos padrões estrangeiros, assumiram a vanguarda dos movimentos de libertação. Por sua própria formação não se identificavam com os ideais islâmicos, sua visão de mundo era profundamente marcada pela mentalidade colonizada, que lhes impunha um forte sentimento de inferioridade cultural. Foi neste contexto histórico que a ideologia nacionalista encontrou um novo terreno para se desenvolver. Conscientemente ou não, essa vanguarda servia os interesses das potências ocidentais. O chamado perigo de um “pan-islamismo” seria então combatido por meio de suas mãos impedindo-se assim o ressurgimento de uma unidade islâmica em seus países.

Alguns historiadores afirmam que a ideologia nacionalista no mundo islâmico foi propagada primeiramente com o intuito de dividir o império otomano, promovendo a discórdia entre árabes e turcos. Verificamos essa tendência ganhando vulto a princípio na Turquia, na Síria, no Líbano e no Egito. Intelectuais autóctones iniciaram um re-avivamento do orgulho racial e histórico reivindicando o ideal nacionalista. Movimentos como o Pan-Arabismo surgiram desta concepção. Por trás desses movimentos é inegável que estavam os orientalistas e missionários ocidentais com a clara intenção de impedir uma unidade islâmica nesses países. A instigação criminosa de britânicos e franceses promoveu a guerra em nome da independência com o objetivo de dividir os muçulmanos e levá-los a uma condição de enfraquecimento. A própria criação do estado de Israel foi uma das conseqüências desse plano imperialista.

Uma segunda onda de movimentos nacionalistas se levantou. Se distinguia da anterior por sua falta de escrúpulos em usar o Islam como bandeira. Seus líderes, conscientes da força do apelo islâmico para galvanizar o apoio das massas em seus países, propuseram em seus programas um “renascimento islâmico”. Porém, logo que chegaram ao poder depois de grande sofrimento do povo, se tornaram os principais agentes de um novo processo sistemático de deslamização. Formaram estados oficialmente laicos ou que o reconhecimento do Islam não passava de um reconhecimento formal; não se furtaram a reprimir os movimentos islâmicos em seus territórios e até mesmo de proibir o ensino religiosos nas escolas. Em todos esses países a “unidade nacional” cobrou o preço do incitamento de rivalidades aos diferentes grupos étnicos e religiosos.

O fracasso histórico do programa nacionalista no mundo islâmico foi sem dúvida, um dos fatores principais que levaram ao fortalecimento do integrismo islâmico na segunda metade do século XX. O alinhamento político de governos herdeiros da ideologia nacionalista com as potências ocidentais acentuou a falta de perspectiva e de esperança das massas islâmicas em várias partes do mundo muçulmano.

Um Novo Momento Histórico

O triunfo da revolução Islâmica no Irã abriu um novo e promissor momento histórico para toda a nação muçulmana. A vitória sem precedentes que depôs as forças inimigas do Islam, que serviam os interesses imperialistas do ocidente, demonstrou aos muçulmanos de todo o mundo a viabilidade de um programa e um estado islâmico, contrariando as expectativas do ocidente e dos nacionalistas dos países muçulmanos. O chamado a unidade islâmica surpreendeu e assustou as potências ocidentais e, sobretudo, os governos subservientes da região.

As vésperas de completar trinta anos a revolução islâmica iraniana tem se provado eficiente na superação dos problemas políticos e econômicos. Sua consolidação desafia os inimigos do Islam mais do que sua ocorrência. Uma das lições desta revolução é a demonstração evidente de que o Islam é capaz de propor uma comunidade humana em bases distintas aos modelos e crenças racistas e nacionalistas. Como religião e ideologia o Islam oferece uma libertação possível da ignorância que arrasta os povos do mundo a sistemas injustos de dominação e esta libertação é em si uma dádiva divina e uma esperança para todo o gênero humano.

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Palavras Iluminadas

“O crente precisa da ajuda de Deus, o Altíssimo, de um admoestador para si mesmo,
e da aceitação de quem o aconselhou.”  Imam Mohammad al-Jawad (A.S.)


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