Agosto / 2018
DSTQQSS
01020304
05060708091011
12131415161718
19202122232425
262728293031
Não foi encontrado nenhum registro para o mês de Agosto
InformaçãoArtigos e MateriasMoral e Ética
Introdução a Dimensão do Irfán (Gnose)
Irfan é a denominação dado ao conjunto de conhecimentos e práticas relacionadas à dimensão interna (esotérica) do Islam.

Por: Ahmed Ismail

Em nome de Deus, O Clemente, O Misericordioso.

Irfan é a denominação dado ao conjunto de conhecimentos e práticas relacionadas à dimensão interna (esotérica) do Islam. Ao contrário das interpretações errôneas que, de modo geral se tornaram usuais no mundo ocidental, esta dimensão esotérica não está dissociada do Islam, nem subsiste sem os aspectos externos deste.

A dimensão externa representada pelo Fiqh (regulamentos do din) compõe o Dzahir (aspecto aparente) do Din e o Irfan nada mais é que o Batin (aspecto não aparente). Ambos formam a unidade, são uma coisa única, logo, não se pode atingir a dimensão do Irfan sem a aderência ao Fiqh, não há conhecimento gnóstico verdadeiro sem perfeita compreensão e aderência aos fundamentos da Religião. Pelo menos isso se aplica ao sufismo autêntico que partilhe do Irfan (conhecimento esotérico) legado pelo Profeta (saas) e cultivado pelos Imames de sua Casa (as) e pelos verdadeiros Awliaa (amigos de Allah).

Se desejarmos compreender o Irfan devemos necessariamente partir dos fundamentos da fé e de modo mais específico do TAWHID de onde derivam todos os preceitos e leis que se referem ao Islam (submissão), Imán (fé) e Ihsan (aprimoramento espiritual). Esta é a dimensão do Fiqh que regulamenta e explica cada um desses fundamentos e que é plenamente acessível e compreensível a todo devoto. Esta dimensão aparente se assemelha a casca de uma fruta enquanto a dimensão do Irfan seria a polpa desta.

A gnose (irfan) se auto-define como um método progressivo da consciência e da evolução espiritual da alma do devoto. Historicamente, é correto que se aceite que esta gnose não está circunscrita à época do Santo Profeta (saas). É uma manifestação do conhecimento e como tal, acompanha a humanidade desde os seus primórdios. Na realidade, este conhecimento gnóstico é inseparável da Verdade Revelada, e por conseguinte, foi cultivado em diferentes níveis e por diferentes métodos por muitos Profetas e Mensageiros e alguns de seus seguidores.

O princípio de método progressivo da consciência e da evolução espiritual da alma é o princípio mais elementar para o entendimento da natureza e do objetivo do irfan. O Alcorão Sagrado em diversos versículos aborda características perceptíveis no ser humano que revelam os processos de seu entendimento, o nível de sua consciência e as tendências naturais ou condicionadas de sua mente. O Alcorão também cita três estágios básicos deste processo:

1. A’N NAFSI AMMARA (A ALMA AUTO-CONDICIONADA AO MAL)
2. A’N NAFSI LAWWAMA (A ALMA QUE SE AUTO REPREENDE)
3. A’N NAFSI MUTMA’INA (A ALMA PACIFICADA)

O primeiro estágio (A’N’NAFSI AMMARA) compreende os que estão fortemente condicionados a suas paixões, aos estados de ignorância e que por isso, têm todas suas inclinações voltadas para a auto-satisfação, isso comumente os mantém num estado de descrença e de total afastamento da lembrança de Allah. Este é o estágio onde prevalecem as paixões terrenas, o orgulho e o aprazimento no mal. Porém neste estágio também se encontram os que possuem uma centelha de fé. Não obstante, acima dela esteja o seu amor mundano e a busca de satisfação das paixões, sua compreensão é apenas um tênue fio de luz e sua fé está em constante risco diante do mundo, dos pecados e das ilusões próprias da Dun’ya (vida terrena).Caracterizam-se por um fraco apego ao din e só com muito custo chegam a cumprir o îbad e as boas ações.

O segundo estágio (A’N NAFSI LAWWAMA) é o que a luz da consciência já ilumina o humano de modo que sua compreensão do bem e a reação ao mal o impulsione a auto-repreensão. Sua fé já é consistente para que atinja algo do Temor (a Allah), suas motivações são um pouco mais sublimadas, ou seja, não age apenas movido por interesses egoístas, algo nele o leva a meditar sobre Allah e seu din com alguma freqüência.

Junto com os do primeiro estágio, constituem a maior parte dos muçulmanos e se dividem em 3 grupos básicos:

a) Os que seu apego ao din e a sua adoração é motivada pelo temor ao castigo do inferno.
b) Os que seu apego ao din e a sua adoração é motivada pela ânsia em ser recompensado com o paraíso.
c) Os que adoram a Allah pela convicção de que é DIGNO DE SER ADORADO e o obedecem em razão disso. Sendo por isso um grupo de melhor compreensão do que os dois anteriores.

Este estágio está intimamente ligado a dimensão do Fiqh (regulamentos do Din). Seu âmbito é a dimensão Dzahir (aparente) do Islam. Neste estágio intermediário a alma está em conflito consigo mesma, no empenho para que a fé e o bem triunfe sobre as inclinações para o mal. Na medida da sinceridade e da devoção destes, Allah lhes confere a Barakah (Benção) da vitória sobre si mesmos, afasta-os da senda da perdição, apieda-se deles e guia-os para a senda da salvação.

O terceiro estágio (A’N’NAFSI MUTMA’INA) é o que corresponde a dimensão do Irfan. A alma que chega a esse estágio já possui plenamente desenvolvidas as qualidades do estágio anterior: O Imán (fé), o temor e a devoção aliada a consciência da realidade do Din e em adição as qualidades próprias desse estágio. Se dividem em 4 grupos básicos:

a) Aqueles cuja intenção alcançou um alto grau de pureza e por isso é envolvida por um sentimento de profunda gratidão a Allah, são os que alcançaram a forte convicção dos infinitos benefícios de Allah e se entregam ao îbad e as práticas piedosas em razão desta compreensão.

b) Aqueles que adoram Allah com uma intenção dirigida pela submissão e profunda humildade, a compreensão destes é vasta como um arco-íris sendo que cada cor seria um dos aspectos dos graus anteriores: Fé, temor, esperança, sinceridade, gratidão, submissão e humildade.

c) Aqueles que alcançam o alto grau de Mahabba (amor) a Allah, a adoração deles é preenchida com este amor e a sua intenção e suas ações em todos os aspectos do îbad se tornaram vitais tanto quanto a respiração é para o corpo.

d) Aqueles que a intenção, a devoção e a compreensão se unificaram em uma só coisa, a mente, o coração e a alma se tornaram absorvidas inteiramente pela recordação, a obediência e a adoração de Allah. São os que não desejam nada senão o que Allah deseje, e, portanto, estão purificados em seus corações, alcançaram a harmonia das ações, das intenções e das palavras. Esses dois últimos graus são os dos Profetas (as), dos Imames (as) e daqueles que Allah tenha eleito como amigos (awli u’Llah).

Esses quatro grupos são denominados com várias distinções especiais no Alcorão:

Os îbadis’salihin (Servos Bondosos), Os Mukhlisún (os sinceros), os Dhakirín (os que muito recordam e mencionam a Allah), os Qanitín (os que muito suplicam a Allah), os Fa’izun (Os vitoriosos) e eventualmente em razão de sua íntegra devoção Allah os torna os xuhada`u ad`dun`ya al Akhirah (os mártires de dignidade neste mundo e no além).

A meta alcançada por estes é denominada por Fanas (extinção do ego) e a conseqüente pacificação da alma (o estado de mutma’ina).

A esses quatro grupos as portas do conhecimento, tanto da erudição (ijtihad), quanto do Irfan (conhecimento oculto) são abertas, ainda que o grau de Mudrak (compreensão) entre eles varie de um para outro, de indivíduo para indivíduo, sendo que os Profetas (as) e os Imames (as) são abençoados com o îlm (sabedoria transcendente) e com o mais alto grau de compreensão deste îlm.

O Irfan é portanto o conjunto do conhecimento e da prática que visa aprimorar a alma em busca deste terceiro estágio que é o cerne do din. Na concepção do Irfan os estágios primário e secundário de condição da alma humana, se caracterizam em diversos graus variantes por um estado de Sono Metafísico em que a pessoa está alijada da Realidade Espiritual. Envolvido por esse estado de inconsciência metafísica, todas as impressões da realidade que essa pessoa tenha são reflexos distorcidos, suas concepções são, portanto, imprecisas sobre si próprio, sobre o universo que o cerca e o mecanismo que move a existência e em adição a isso, mesmo suas aspirações não são capazes de conduzi-lo a nada senão a mais inconsciência.

Segundo a compreensão de alguns gnósticos, a criatura humana possui 3 centros básicos dirigidos a 4 dimensões de existência: O primeiro é o centro sensorial que se relaciona aos cinco sentidos e por conseguinte, ao mundo exterior (o aparente, o fenomenal). O segundo é o centro emocional que se localiza no coração e se relaciona as emoções e os desejos subjetivos, num nível mais profundo este centro se relaciona a dimensão espiritual (do âmago do ser, a alma). O terceiro é o centro da razão que se relaciona a lógica e o intelecto. Cada um desses centros neste estado de sono metafísico encontram-se em total desarmonia e submetidos à inconsciência. Com isso, tudo o que os sentidos, as emoções, o intelecto e a alma neste estado captam são impressões parciais e imprecisas da realidade. E o homem condicionado a esse sono metafísico não é senão um escravo de seus sentidos que o ludibriam, de suas emoções que o arrastam as paixões destrutivas e aos desejos insaciáveis e de sua mente que o conduz de um pensamento a outro até que a morte o surpreenda.

Os métodos e práticas do Irfan visam num primeiro momento educar esses centros do ser num processo lento e constante.

O Primeiro passo neste processo é a aderência aos pilares da fé (por uma compreensão correta do Tawhid) e do Islam, o estabelecimento dos îbadat (sallah, jejum e zakat), a correta distinção entre o haram e o halal. Contudo, deve-se tomar o cuidado para que esta aderência não seja cega ou mero repetir de rituais, para isso é preciso que a pessoa mantenha sua mente empenhada na meditação sobre os princípios do Din e seus profundos significados até que sua intenção seja aprimorada e então, seus îbadat e sua ações bondosas passam a ser realizadas com consciência. Porém, um estado de vigília se faz necessário sobre o coração, a menos que o fiel possua plena consciência e aceitação de que "Todo Bem pertence a Allah" e que somente Ele é Digno de Louvor, seu culto e suas ações correrão o risco de o conduzirem a um estado de auto-engrandecimento. Por esta razão frequentemente o conhecimento mal orientado e a boa ação sem a devida consciência arrastam ao desvio espiritual. O caminho da Religião só pode ser trilhado com profunda humildade.

O segundo passo é a adoção do método fundamental do Irfan: o desenvolvimento da consciência pela recordação de Allah (DHIKRULLAH). O conhecimento tradicional, fundamentado no Alcorão e na tradição fiel ressalta a RECORDAÇÃO DE ALLAH como método por excelência. O despertar da alma não pode ser conseguido por nenhum outro método. O Alcorão, que em diversas passagens exorta os crentes a essa recordação, em versículos como:

“QUANTO AOS TEMENTES, QUANDO ALGUMA TENTAÇÃO SATÂNICA OS ACOSSA, RECORDAM-SE DE ALLAH E EI-LOS ILUMINADOS.” (7 : 201)

“E QUANDO TIVERDES CONCLUÍDO A ORAÇÃO, INVOCAIS A ALLAH, QUER ESTEJAIS DE PÉ, SENTADOS OU DEITADOS...” (4 : 103)

Considerando que todos os îbadat se validam à medida que esse estado de recordação se estabeleça, é evidente que no âmbito do Dhikr se situa a consciência da devoção sem a qual todas as ações se tornam simples repetições sem vida. Neste ponto, que a prática correta implica em correção da intenção e nesse aspecto está a relevância de Dhikr desde que a criatura condicionada a um estado de inconsciência da realidade encontra-se em tal condição que a sua intenção obviamente está longe dessa pureza. Somente um constante esforço de Recordação de Allah pode pouco a pouco corrigir sua intenção na medida que a luz da consciência da realidade do din substitua o sono metafísico, o estado de inconsciência, de adormecimento da alma. Esse método é direcionado ao Qalb (coração espiritual) o centro das emoções e fonte de todas inclinações relacionadas a Alma. Diversas tradições frisam que pela purificação do Qalb, a luz do din alcança a alma, ou melhor dizendo, a alma readquire seu brilho original e por conseguinte reaviva a consciência da mente e dos sentidos. Este segundo estágio tem por objetivo principal o controle do nafs (íntimo). Em outras palavras, por meio da prática constante do Dhikr se tem por objetivo canalizar a energia interna dispersa nas inclinações e paixões básicas, fazendo com que a mente e a alma realizem o controle das paixões e dos condicionamentos primários.

Na condição de sono metafísico a criatura encontra-se envolvida com a impureza em vários níveis. Para cada modalidade de impureza há um elemento purificador:

1. Para a impureza do Kufr (descrença) a fé no xahadah “LA ILAHA ILLALLAH, MOHAMMADUN RASULULLAH”.
2. Para a impureza do pecado o Tawbah (arrependimento) e o Istighfar (pedido de perdão), o jejum, o Zakat e as ações bondosas.
3. Para a impureza do corpo e dos canais das ações humanas (face e membros) o Ghusl e o Wudu.
4. Para a impureza do comportamento vicioso os Salawat e o dua'a
5. Para a impureza da ignorância a luz do conhecimento correto.
6. Para a impureza do Qalb (do coração onde residem as intenções e inclinações mais íntimas) o DHIKRULLAH (RECORDAÇÃO OU MENÇÃO DE ALLAH).

Todos esses métodos são do âmbito do Fiqh e devem ser adotados em conjunto, pois esse Din é uma Unidade e busca agir sobre a totalidade da criatura.

No que diz respeito ao Dhikr o Irfan o define como um ESTADO DE RECORDAÇÃO que se estabelece em 4 níveis fundamentais.

O nível primário é o denominado invocação (ou menção) em que o devoto se empenha em praticar, recitar as invocações sagradas. Esta prática deve ser constante e diária para que se alcance o segundo nível.

Este segundo nível é o que a invocação é acompanhada de MURAQABA (MEDITAÇÃO OU CONTEMPLAÇÃO), neste caso, o dhikr engloba a recitação e uma atitude interna de constante lembrança seja dos atributos divinos ou aspectos e sinais sagrados invocados com a língua. Se por exemplo, o devoto está a praticar o Istighfar, neste nível ele mantém sua mente absorta o quanto lhe for possível em sua ação, no que se refere aos seus pecados e na vastidão do perdão de Allah, com temor e esperança.

O terceiro nível é o Dhikr Ikhfat (silencioso), quando a recordação já prossegue mesmo sem a invocação. Neste nível, o devoto mantém um relativo estado de Muráqaba em boa parte do tempo, mesmo quando envolvido em outras atividades esse estado de recordação com razoável freqüência se estabelece em sua mente, este estado é citado no Alcorão no seguinte ayat sagrado: “E RECORDA-TE DE TEU SENHOR INTIMAMENTE, COM HUMILDADE E TEMOR, SEM MANIFESTAÇÃO DE PALAVRAS...” (7 : 205).

O quarto e mais alto nível é o KAMIL DHIKR no qual a recordação de Allah se estabelece de modo integral envolvendo todas as ações e pensamentos do devoto. Este nível é o dos amigos de Allah, dos Profetas e dos Purificados Imames (as) de modo que um devoto só o alcança por obra e graça de Allah, que elege os seus amigos e os abençoa por meios que só Ele conhece.

Entretanto, é também ressaltado que um avanço espiritual só é possível na razão direta que o Nafs (íntimo) seja controlado e submetido pelo fortalecimento da vontade. O Nafs (íntimo ou Ego) de um homem condicionado ao sono metafísico se assemelha a um cavalo selvagem continuamente fustigado ora pelas impressões dos sentidos, ora pelas paixões, desejos e inclinações viciosas ou pela conturbação da mente. A natureza de Nafs se caracteriza pelo condicionamento a ação, ou seja, sua tendência natural é a repetição de um determinado conjunto de comportamentos e repetições (hábitos). Assim sendo, não é possível controlá-lo pela simples supressão da atividade ou uma eventual repressão das ações. O único modo de fazê-lo e substituir os maus condicionamentos e hábitos por ações corretas. Aqui novamente surge a importância da prática dos îbadat e das ações piedosas para que o nafs seja recondicionado, purificado e mantido ao menos sob um relativo controle. A fé se revestida de temor dá ao homem os meios para que consiga reformar o seu íntimo, na medida da sinceridade de seu esforço nesse sentido.

O Nafs pode ser mais facilmente reeducado se o devoto alia a sua prática à meditação sobre o din com constância. Esse esforço surte efeitos se de modo simultâneo o devoto der devida atenção às abstenções. Chamamos de abstenções o afastamento de todas as coisas que contribuem para a impureza e a desestabilização do Nafs. Allah o Altíssimo vedou-nos certas coisas, decretando-as como Haram as quais o Fiqh detalha. Se analisarmos com profundidade a natureza e o efeito de cada uma delas perceberemos que contribuem para o desequilíbrio dos 3 centros do ser (sentidos, coração e Mente).

No que tange aos sentidos (centro sensorial) as abstenções são específicas à visão, fala, audição, paladar e tato.

A visão: o devoto deve se abster de olhar aquilo que desperte sua cobiça, sobre o qual ele não tem direito, ou o que é obsceno.

A fala: o devoto deve se abster de palavras maldosas e depreciativas sobre outros, a mentira, a intriga, a calúnia, bem como das palavras maliciosas e vulgares, das conversas despropositadas e levianas.

A audição: o devoto deve abster-se de dar ouvidos a tudo aquilo que é proibido à fala.

O paladar: o devoto deve abster-se de comer e beber o que é impuro (a carne de porco e de outros animais de natureza impura), a carne de animais abatidos incorretamente e o consumo de bebida alcoólica). Abster-se igualmente de comer e beber em excesso o que seja lícito.

O tato: o devoto deve abster-se de tocar ou se apropriar daquilo que não tem direito ou que pertença a outros. Esta abstenção abrange a fornicação, o adultério, o roubo, o furto, os juros, a malversação dos bens e do que lhe seja confiado.

O nafs não pode ser controlado a menos que o devoto observe fielmente essas abstenções. Como já dissemos, o Nafs pode ser recondicionado pela substituição das más ações e hábitos por ações piedosas e hábitos corretos.

Os îbadat possuem dois aspectos básicos: a adoração em si (na obediência a Allah e na busca do seu aprazimento) e a reeducação do Nafs, este segundo aspecto é o evidenciado no Ayat Sagrado: “A ORAÇÃO PRESERVA (O HOMEM) DA OBSCENIDADE E DO ILÍCITO...” (29:45)

Por outro lado, se as abstenções acima não forem observadas o îbad será como o banho do elefante que ao sair da água enfia-se no lamaçal. Por essa razão a ênfase na meditação, no dhikr e no estudo constante por parte do devoto.

O Princípio da Não-Renúncia

Contrariamente a visão ocidental de religiosidade e esoterismo, o Islam não propõe a renúncia ao mundo como outros sistemas místicos do oriente. Ao invés disso, propõe o desenvolvimento da consciência a partir de uma relação direta com o mundo que nos cerca; e declara que esse objetivo só pode ser alcançado pelo aprofundamento dessa relação. O fundamento dessa convicção encontra-se nas dezenas de versículos sagrados do Alcorão que nos exortam a meditar sobre o mundo e o universo que nos cerca, sobre nós mesmos e sobre os comportamentos humanos. Versículos como: “E NA TERRA HÁ SINAIS PARA OS QUE ESTÃO SEGUROS NA FÉ. E TAMBÉM OS HÁ EM VÓS MESMOS. NÃO VEDES ACASO?” (51: 20 e 21) Deixa-nos claro que a realidade objetiva e eterna não está distante de nós, não é algo a ser alcançado no claustro das montanhas, mas sim aqui e agora, como alguém que esteja num quarto escuro cheio de tesouros, não é uma questão de sair do quarto, mas ao invés disso, acender a luz e ver, a luz aqui referida é a consciência que possibilita que a criatura enxergue a realidade das coisas.

Assim, o Islam não prega a renúncia externa ao mundo, e o Irfan explica essa posição com o dizer “ESTEJA NO MUNDO SEM SER O MUNDO”. O que na prática significa viver de modo consciente quanto a impermanência da vida terrena e o caráter ilusório das coisas que este mundo oferece, tendo ao mesmo tempo uma viva recordação da realidade do invisível e da vida futura. Assim como um ator que embora cumpra o papel a ele incumbido não esquece de manter-se consciente de quem ele realmente é.

DUN’YA (vida terrena) é representada na linguagem mística do Irfan como um labirinto de espelhos. O homem com a consciência adormecida vê os reflexos a sua volta e toma-os como reais, semelhante a alguém que sonha e interpreta o seu sonho como sendo a realidade e quando desperta percebe o quanto estava enganado. Ao morrer, todo humano se confronta com essa percepção; o din é um modo de fazer com que a consciência desperte antes da morte.

A Questão dos Dons Místicos e dos Prodígios

Um aspecto do Irfan que costuma despertar o interesse das pessoas é a manifestação de certos dons místicos e prodígios atribuídos aos sufis. Na verdade esses dons místicos e prodígios não fazem parte dos objetivos dos sinceros e sérios, são antes conseqüências eventuais do aprimoramento da consciência, que devem ser analisadas com cuidado. Primeiro, é necessário que façamos uma correta distinção dessas manifestações.

É inegável que o conhecimento do nível do Irfan sendo devidamente aplicado pode conduzir a certos dons, especialmente quando relacionado às invocações dos atributos divinos (asmaul husna), entretanto, um dom aplicado sem sabedoria ou que se envolva com uma intenção impura leva o seu praticante a ruína espiritual.

Mujîzah é a denominação dos prodígios ou sinais que Allah conferia a seus Profetas (as). Tais sinais, via de regra eram concedidos com uma razão específica no cumprimento de suas missões. Ademais os Dua’as (apelos) dos profetas eram atendidos por Allah, o que aos humanos em geral, significavam coisas além do possível. A característica determinante de um Mujîjah, é que se tratava de um sinal ou prodígio que não podia ser de modo algum repetido por outros, que não por aqueles Mensageiros de Allah, a quem Ele os havia capacitado para tal. A história dos profetas está repleta desses sinais incomparáveis: os sinais legados a Moisés (as), a revelação do Alcorão e o sinal da Lua Fendida concedidos ao Santo Profeta (saas), a ressurreição dos mortos concedida a Jesus (as), etc.

Os Imames (as) e os Awliia eram capacitados a operar certos prodígios e manifestavam determinados dons em razão de sua elevada condição espiritual. A isso denomina-se de Karamah, porque é um favor divino a seus servos diletos. O que havia de comum nestas duas modalidades de manifestações místicas era a Báraka (Benção divina) concedida as almas purificadas, todas essas manifestações conduziam as pessoas a compreensão do Poder de Allah.

Istidráj é a denominação dada aos prodígios operados por inspiração demoníaca que ao contrário, afastam as pessoas das diretrizes do Din, alimentam a idolatria e são empregados por homens de má índole que fazem uso de seus conhecimentos com intenções malignas. Istidráj é infelizmente algo muito vulgar e difundido no mundo tanto no passado como nos dias atuais. Magos, feiticeiros, falsos servos de Deus e embusteiros estão por toda parte iludindo as pessoas e empregando Istidráj para desviá-las.

No caso específico dos Karámah manifestados por um determinado homem de conhecimento, ressaltamos que em nenhuma circunstância induz ao desvio, e muito menos é um objetivo em si mesmo. É na verdade uma prova no aprendizado espiritual da qual só os realmente sinceros e tementes se mantém incorruptíveis.

Palavras Finais

Diante da complexidade desse assunto (o que demandaria anos de estudo e muitos livros para uma abordagem mais profunda) espero que essa breve análise sirva como uma introdução aos estudiosos.

O Irfan não é uma área de conhecimento teórico, é a própria prática do din, tentei aqui apenas dissertar sobre alguns aspectos essenciais. O mais importante para os muçulmanos é cultivar essa consciência mais profunda do din, do conhecimento tradicional cultivado e legado pelo Profeta (saas) e pelos Imames de Ahlul Bait (as).

O dizer profético “EU SOU O PALÁCIO DO CONHECIMENTO E ALI É A PORTA”, deixa claro que o conhecimento é franqueado para os crentes ainda que esteja disposto em vários níveis de compreensão.

Links Relacionados
Palavras Iluminadas

“O crente precisa da ajuda de Deus, o Altíssimo, de um admoestador para si mesmo,
e da aceitação de quem o aconselhou.”  Imam Mohammad al-Jawad (A.S.)


ARBIB - Associação Religiosa Beneficente Islâmica do Brasil - Departamento de Comunicação
Todos os direitos reservados à ARBIB - A reprodução é permitida, desde que citada a fonte