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Aspectos Esotéricos do Taharah
O Islam em seu conjunto de princípios e práticas, expressa uma realidade transcendente (não-visível) e que, no entanto, possui uma dimensão perceptível.

Por: Ahmed Ismail

O Islam em seu conjunto de princípios e práticas, expressa uma realidade transcendente (não-visível) e que, no entanto, possui uma dimensão perceptível através da qual os seres humanos são capazes de compreendê-lo e coloca-lo em prática em suas vidas. Estas duas dimensões não são coisas distintas, são na verdade dois aspectos de uma única realidade. A dimensão do din que é perceptível (aparente - Dzáhir) é aquela na qual se ocupa o Fiqh (jurisprudência). Este, por sua vez, determina e regulamenta as práticas em todos os seus detalhes.

Entretanto todo princípio, preceito e prática do Islam possui seus próprios aspectos BÁT’IN (esotéricos, não-aparentes). Por vários motivos esses aspectos costumeiramente não são enfatizados nem mesmo citados, o principal motivo é que devido à complexidade desta questão os sábios desta área evitam uma abordagem verbal, pois os diferentes níveis de compreensão das pessoas em geral poderiam interpretar de modo errôneo esses conhecimentos produzindo distorções e falsas concepções. Pela própria limitação da palavra escrita e verbalizada muito dessa dimensão esotérica do Islam não é comunicável por essa via. De fato, a maior parte desses aspectos não-aparentes reside no âmbito do conhecimento prático (no qual o conhecimento não pode estar dissociado da prática) o que por si só torna o acesso a isso restrito a apenas aqueles que tenham suficiente compreensão desenvolvida e qualidades de caráter já aperfeiçoadas pelo din.

Alguns aspectos esotéricos, porém, são perfeitamente compreensíveis por uma grande parte das pessoas e podem inclusive auxiliá-las numa compreensão mais profunda do din.

Para um comentário preliminar a esse assunto é conveniente tomarmos como tema a título de exemplo, a ablução ritual e algumas particularidades e conceitos referentes ao Taharah (pureza) e ao Najjasah (impureza).

Allah, Exaltado Seja, no Alcorão ordena a ablução ritual citando quatro pontos específicos: a face, os antebraços (dos cotovelos às mãos), a cabeça e os pés. Se analisarmos isso do ponto de vista do Fiqh, a determinação em si é a razão, porque o fiqh trata do aspecto do preceito partindo da autoridade divina a ser obedecida (esta regra é constante no que diz respeito a todo preceito e lei). Contudo, como dissemos antes, há uma razão não-aparente de similar importância. Os quatro pontos citados tem relações próprias concernentes as faculdades distintivas do homem. A face se relaciona no aspecto esotérico à alma, ao íntimo mais profundo e ao Fitrat (natureza original). No ato de purificá-la é envolvida a intenção de restituir a pureza original livrando a alma da mancha do pecado (que não faz parte dessa natureza original).

Os antebraços em sua extensão até as mãos relacionam-se as ações, as obras da criatura humana a serem purificadas, a cabeça se relaciona à razão e os pensamentos, e os pés à natureza inferior das paixões e instintos, a serem purificados dos pecados da condução ao erro e aos desvios. O que observamos é que esses pontos manifestam a vontade (o exercício do livre-arbítrio) da criatura humana.

As determinações do Fiqh quanto ao cuidado para evitarmos que a água que já tenha tocado algum ponto volte a tocar outro e realizarmos com atenção o ato de massa (passar a mão molhada no ponto e não apenas molhar) encontram justificativas sob o ponto de vista do Bat’in da ablução. A intenção do purificar-se pertence a dimensão oculta e subjetiva e como toda ação dessa natureza conta com seu aspecto aparente que no caso é o elemento purificador (água, terra limpa,etc.).

Há um outro aspecto esotérico a ser frisado que é a realidade não percebida pelos sentidos dos sinais das ações humanas que se registram no próprio corpo físico, isso se efetiva como uma espécie de registro pessoal. O Alcoirão nos diz:

“NESTE DIA, SELAREMOS SUAS BOCAS, PORÉM SUAS MÃOS NOS FALARÃO E OS SEUS PÉS CONFESSARÃO TUDO QUANTO TIVEREM COMETIDO”. (S. 36 V. 65)

Nos conceitos referentes ao Taharah (pureza) e Najjasah (impureza), o aspecto esotérico envolve uma explicação acerca da natureza dos elementos e na sua relação com a natureza do homem. São distintas categorias de elementos que compõem o universo, de modo similar como as distintas propriedades presentes nos elementos químicos e metais. As categorias que nos interessam nesse estudo são:

1. A dos elementos puros (naturalmente puros) e com propriedade purificadora.
2. A dos elementos impuros (naturalmente impuros).

De um modo geral os elementos puros (naturalmente puros) são de um modo ou de outro purificadores, ou seja, tem a propriedade de retirar e purificar a matéria da ação dos elementos impuros. Uma característica identificável nestes elementos é o seu estado de incorruptibilidade (água pura, fresca sem alteração de sabor, cor ou cheiro; terra ou rocha limpa) na qual todas as suas propriedades naturais estejam, inalteradas. De modo similar, a característica identificável dos elementos impuros é o seu estado de matéria corrompida, seja por um estado já desencadeado de morte ou decomposição (o sangue e o esperma quando expelidos já apresentam este estado, o mesmo se pode dizer dos demais elementos impuros).

No caso da bebida alcoólica o que se apresenta é uma transmutação (de um estado natural para um elemento potencialmente corruptor). Para uma melhor compreensão do que é objetivamente esta distinção de elementos puros ou impuros, diremos que isso se processa de modo semelhante a outras categorizações de elementos presentes na natureza. Por exemplo, como sabemos existem elementos naturais que são mortais para o homem (o urânio, o tálio, os venenos das serpentes) como existem elementos curativos e naturalmente benéficos, assim também existem elementos puros e naturalmente impuros. Há ainda as criaturas que por natureza são impuras para o homem como o porco e o cão.

Mas o que definiria este estado de impureza em relação ao homem? No caso específico desses e de outros animais (como os répteis) há um elemento de corrupção relativo a natureza psíquica (além dos conhecidos males físicos provocados por essas criaturas ao homem). Quando dizemos da influência sobre a natureza psíquica do homem estamos nos referindo a certas características (paixões e extintos) presentes tanto no homem como nos animais, características semelhantes de modo muito especial no homem, no porco, no cão e no macaco. O homem se diferencia destes por seu intelecto (razão) e sua posição na criação, porém se essas distinções não forem predominantes nele, a tendência que se afirma é sua degradação ao nível dos instintos bestiais presentes nele e nesses animais. Existem duas vias para que esta degradação surja no homem: A primeira é a sua deliberada permissividade para com os seus próprios instintos e paixões, até que a sua noção de bem e de mal se entorpeça. A outra via é o consumo da carne dos animais impuros ou de elementos impuros (como a bebida alcóolica), que progressivamente desperta no homem as características, instintos e paixões que são comuns a ele e a essas criaturas: a brutalidade, o egoísmo e a promiscuidade.

No caso específico do consumo das bebidas alcoólicas, se produz este mesmo efeito deletério no homem. Em quantidades pequenas e costumeiras, o que se processa é uma gradual e quase imperceptível degeneração dos valores morais e éticos, uma permissividade que pouco a pouco mina a distinção correta do bem e do mal. Em grande quantidade são tão conhecidos seus efeitos que a própria cultura popular de vários povos adotou em tom de anedota a crença das três fases da embriaguez: a do macaco, quando ele se torna ridículo, causando o riso; a do cão, quando ele se torna agressivo; e a do porco, quando o excesso o leva a dormir sobre seu próprio vômito.

Este desequilíbrio na natureza psíquica do homem também pode ocorrer através do consumo da carne dos animais puros, porém mortos de modo errôneo (por estrangulamento, choque elétrico ou pancadas) as fortes impressões da morte percebida, do pavor e do ímpeto do animal para a sobrevivência, impregnam a carne abatida agindo de modo prejudicial sobre aqueles que a consomem.

Se analisarmos os animais que Allah decretou como lícitos para o consumo humano (desde que sacrificados de modo correto) veremos que as características predominantes neles são muito diferentes das apresentadas acima. São de natureza pacífica, não se alimentam de coisas imundas e impuras e mesmo sua natureza bestial não se assemelha a do homem, a do porco, do cão e do macaco. De maneira que, o eventual consumo de sua carne (se isenta do sangue fluente, que deve ser liberado no momento do abate) não desperta no homem nenhum desequilíbrio que afete sua psique. O mesmo princípio se aplica na abstenção da carne de outros animais como os répteis, as aves de rapina e as feras selvagens. Já no caso específico da abstenção relativa aos seres aquáticos desprovidos de escamas, aos insetos e outras espécies animais, a razão reside no princípio de Najjasah (matéria natural ou potencialmente impura) e na incompatibilidade natural entre essas criaturas e o homem.

O objetivo básico das abstenções do Haram é criar um estado de equilíbrio que possibilite um perfeito discernimento do intelecto, uma disposição a elevação do coração (qalb) com um controle razoável das paixões e dos instintos.

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“Deixo convosco duas preciosidades, o livro de Deus e os meus Ahlul Bait.” Profeta Mohammad (S.A.A.S.)


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